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NEGOCIAÇÃO PRÉ SESSÃO SHIBARI

Atualizado: 29 de Mai de 2019

Texto por Fernanda Mazza e Maya


Antes de tudo: você conhece algo sobre o shibari? O que é e pra que serve? Como deve se comportar sendo amarrado, quais conhecimentos mínimos precisa ter? Quais os riscos da prática? Se informe sobre todos os prós e contras antes de procurar alguém ou se submeter a uma sessão. Este texto foi feito pensando que você já conhece tudo isso e está no momento de escolha da rigger e negociação da sessão. _________

A negociação é uma parte muito importante da prática, especialmente se você não tem tanta intimidade com a rigger e vocês ainda estão se conhecendo nas cordas. Nesse momento ambas estabelecerão seus limites e poderão combinar sinais ou palavras para quando houver problemas durante a sessão. Tudo deve ser falado nesse momento, se estiver tímida, escreva. Será melhor falar tudo agora do que se frustrar depois.


Comunicação é essencial

Como você lida com seu corpo e como coloca seus limites? Consegue se expressar bem? Você fala pra parar quando sente algo de errado?

Saiba que você SEMPRE deverá avisar quando questões de segurança estão em jogo. Não importa o quanto a sessão esteja incrível, COMUNIQUE. Saiba que a rigger confiará muito mais em você e se sentirá mais à vontade para te amarrar mais vezes.

Precisa de safeword? Precisa que pergunte de tempos em tempos se está tudo bem? Fale tudo isso e explique que sinais aparecem quando você não está mais confortável, caso não consiga verbalizar. Peça para que a rigger preste atenção nestes sinais.

Combine algum sinal que signifique que está perto do limite se conseguir, dessa forma a comunicação fica mais clara. Sugestões de sinais a serem combinados pré-sessão caso não consiga falar: abrir os olhos e olhar fixamente a rigger, piscar um número combinado de vezes olhando diretamente para a rigger, segurar um guizo ou sino e mexe-lo por mais de 5 segundos, segurar algo com a boca o tempo todo e próximo do limite soltar.

Tem alguma expectativa sobre essa experiência? Não ache que será exatamente da forma que você idealiza; como toda primeira vez, tem uma variedade de coisas inesperadas que podem acontecer, nunca podendo ser fora do acordo, obviamente. Perceba que a rigger também não fará absolutamente tudo o que vc disser que pode ou quer. Ela não está ali para satisfazer todos os seus desejos e também tem seus próprios limites, respeite isso. Respeite quando a rigger disser que não está disposta a te amarrar também.

Geralmente riggers não falam exatamente o que pretendem amarrar e como vão fazer isso, pois perde-se um pouco a graça da surpresa, do inesperado. Por isso a importância de sempre a sessão ser feita com confiança mútua. Se tudo for dito antes da sessão, passo a passo da amarração, a rigger perde espaço para ser criativa e agir intuitivamente, haverá uma sessão muito mais ‘mecânica’ e não será uma experiência tão boa quanto poderia ser para você, pois não haverá tanta novidade.

A dependência da experiência ser muito positiva ou não vai da sintonia entre as duas pessoas: a percepção e boa leitura da rigger das reações do bottom (leitura corporal e de expressões faciais), boa comunicação verbal ou não verbal.

 A leitura e criatividade da rigger servem para que ela continue, pare ou mude algo na sessão a partir das reações do bottom.


LINKS interessantes sobre o tema: https://kinkyphilia.wordpress.com/2017/11/21/about-being-a-bunny/ e resposta ao texto pela Gorgone, modelo muitíssimo experiente e reconhecida no meio https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=375923802848461&id=100012925334890


Já foi amarrado antes? A experiência foi positiva ou negativa? Houve algum problema durante ou após a amarração? É interessante sabermos o que você conhece disso, se já houve problemas, se soube detectá-los e se comunica a rigger quando deveria. Se já tem mais experiência, conhece bem o seu corpo e sabe o que gosta no shibari.

Cada um tem algo que acha mais interessante sentir, seja psicologicamente ou fisicamente. Como você gostaria que te amarrassem? De forma sensual; carinhosa; sexual; dominante? Algumas vezes tudo isso pode estar presente numa só cena em momentos diferentes. Se não tem experiência, pense primeiro em experimentar só as cordas, com alguém que você já confia e deixe claro o que você NÃO quer. Ex: dor (ou alguns tipos de dor apenas), toque em partes íntimas, humilhação. Lembrando que se o estilo da rigger for mais agressivo e você quiser uma sessão carinhosa, isso tem grandes chances de ser frustrante para ambas as partes.

Qual intensidade prefere? Cordas bem justas e apertadas, um pouco menos intenso? Mesmo gostando de mais intensidade, quando conhecemos pessoas novas é sempre bom começar suave. A intensidade das pessoas costuma ser diferente e o que é pouco intenso para uma pessoa pode ser muito intenso pra outra. Isso pode ir se ajustando com o tempo, um conhecendo o outro pelas cordas.

Isso depende do seu auto conhecimento, maior intimidade com as cordas e da sua relação com o próprio corpo.


Para escolher a rigger: pesquise, conheça seu trabalho e procure feedbacks de quem já foi amarrado pela mesma pessoa.

Às vezes pode acontecer uma certa frustração se o estilo da pessoa não combina muito com você. Tem pessoas mais sexuais, mais carinhosas, que causam mais dor, que gostam mais de suspensão total, de solo, suspensão parcial. Existem também pessoas versáteis que podem ajustar o próprio estilo conforme o seu desejo. É legal encontrar alguém que você ouça falar e pense: isso parece interessante, quero experimentar.

É sempre importante saber se a pessoa que amarra é realmente confiável. Fama não quer dizer nada (como número de seguidores no Instagram, Tumblr etc). Cuidado com essas escolhas e se alguma falha em consentimento acontecer, alerte outras pessoas, se tiver forças pra isso, incentivo fortemente que faça uma denúncia formal.

Pense em todas as coisas que você não gosta que façam intimamente, pense em quem vai te amarrar, e naquilo que é ou não confortável para você. Toques, contato físico, partes sensíveis, ou em que você sente cócegas, agonia, repulsa, ou se tem algum gatilho com a forma que tocam ou onde tocam seu corpo. Tem alguma parte do seu corpo que vc não gostaria que fosse tocada?

Deixe claro tudo o que não quer. Não quer nenhuma carícia mais sexual, não quer beijos, não quer que te morda, que te lamba, que passe os dedos na sua boca ou que coloque dedos na sua boca.


Pode limitar que os toques serão só das cordas e mãos que tocam apenas conduzindo-as, porque elas precisam passar por ali. Pode pedir para não fazer nenhuma amarração que passe entre as coxas, mas suas pernas podem ficar fechadas e ser amarradas juntas, por exemplo.

Você confia e se sente confortável com o toque da pessoa que vai te amarrar? Sente segurança? Se acha que tem qualquer coisa estranha, você tem TODO direito de falar que não quer mais, mesmo que esteja prestes a ser amarrado, ou já esteja sendo. O  consentimento pode ser revogado em qualquer momento. Ninguém quer criar traumas; se forçar a algo que não é confortável para si é se desrespeitar.

Respeite seu corpo, sua mente e seus limites.

Como você lida com exposição?

Pode haver exposição de seios ou genitais? Prefere ficar com roupa de baixo Completamente vestido? Só de calcinha? Particularmente gosto da corda tocando diretamente na pele, por isso prefiro ser amarrada com pouca roupa, mas isso não quer dizer que todas as partes expostas possam ser tocadas, amarradas, ou estimuladas, seja com cordas ou outros. E se estiver confortável com roupa de baixo, mas não quiser mais exposição, fale: quero ficar com essa quantidade de roupa durante toda sessão, não fico confortável com menos que isso.

Fale sobre suas limitações de saúde física e psicológica. Informe seu histórico de saúde, tanto física quanto mental. Já passou por: cirurgias ortopédicas, problemas articulares, costuma ter incômodos, dores ou dificuldade em movimentar alguma parte do corpo, problemas de circulação ou pressão, crises de pânico ou ansiedade, claustrofobia ou tem algum trauma psicológico? Essas informações ajudam a rigger a pensar em como te amarrar minimizando: risco de lesões ou até mesmo de acionar gatilhos. É sedentária ou pratica alguma atividade física? Se pratica alguma atividade física provavelmente você conhece um pouco mais sobre seu próprio corpo, ele já está acostumado em trabalhar musculatura ou articulações e sabe como se preparar para uma atividade potencialmente estressante fisicamente. Consequentemente, terá menos chance de sentir alguns desconfortos durante a sessão ou após ser solta. Além de poder experimentar algo que seja um pouco mais intenso, caso queira, e a rigger tenha experiência para tal.

Gatilhos: você deve comentar sobre eles, pois algo pode ser acionado durante a sessão. 

BDSM e Shibari 

Nem sempre há elementos do BDSM no shibari. Às vezes eles podem ser complementares numa sessão.


Dor

Tem algum local mais sensível a dor ou cócegas? Você quer dor? Gosta? Tem algum local no qual você não possa sentir dor? Quando nos submetemos as cordas, diversas pequenas marquinhas e lesões podem aparecer, como hematomas e nem sempre relacionados a uma sessão que cause dor. (Link para consequências do shibari: hematomas podem acontecer não propositalmente.) Flogger, velas, chicotes, etc são elementos que causam dor e que podem ser utilizados em uma sessão de shibari caso você permita. Mas ela pode ser causada só com as cordas caso você prefira. Pense se tem alguma dor que você não tolera: mordidas, arranhões, queimadura de cordas, dor de alongamento, dores em ponto de pressão, etc.


Restrição respiratória

Sua boca e nariz podem ser cobertos? Seu pescoço pode ser pressionado? Isso não pode acontecer em hipótese alguma? Pode haver cordas no pescoço ou rosto? Venda ou lenço cobrindo o rosto inteiro? Qualquer brincadeira com restrição respiratória é bastante perigosa, seja cobrindo nariz e boca ou pressionando o pescoço, talvez seja interessante ler mais sobre isso e explorar com alguém que tenha experiência nesse tipo de prática, caso queira. Só permita que haja cordas no pescoço se a rigger for experiente nisso, pois podem ocorrer acidentes gravíssimos.


Restrição visual

As vendas fazem você mergulhar totalmente para o seu mundo, o que acontece em volta interfere menos, você tende a se concentrar mais nas sensações da sessão e, na minha humilde opinião, ajuda a entrar em Rope Space. Se você tem claustrofobia, talvez isso não seja tão interessante.

Se a ideia for de lenço cobrindo rosto inteiro, saiba que pode ficar quente, a respiração pode se alterar, dependendo do quão justo a rigger deixe isso, a pressão também pode baixar devido ao calor, e a sua voz ficará abafada. Só permita lenço no rosto inteiro caso confie totalmente que a rigger estará atenta a qualquer sinal de desconforto e tentativa de comunicação verbal.


Psicológicos

Quer falar o que te causa medo ou humilhação? Isso pode ser provocado durante a sessão? Gosta de relações de dominação e submissão?


Complicações durante a sessão Caso sinta formigamento só em uma parte da mão, perda de força, movimento ou sensibilidade de alguma área, avise a rigger, pois pode ser o início de uma compressão nervosa ou comprometimento circulatório que fará você não perceber outras lesões e as consequências podem ser graves. Muitas vezes pode haver sensação de anestesia total de determinada região, quando se está a muito tempo amarrado devido a comprometimento vascular ou de plexo nervoso. A sensação de anestesia pode mascarar lesões, não permaneça na amarração dessa forma, é irresponsável e perigoso. Há uma divisão de responsabilidades aqui: a rigger tem a técnica e te amarra ou solta a depender das suas reações e da forma que se comunicam, você mantém a comunicação e se compromete a cuidar do seu próprio corpo para que a prática seja sadia.

Pós sessão Às vezes é preciso algum tempo para entender as novas sensações que as cordas proporcionam e as emoções que vêm com elas. Aliás, se dê um tempo de introspecção para processar e digerir a experiência.

Após a sessão é sempre interessante refletir e perceber como você se sentiu em cada momento, para que descubra limites e aprenda a negociá-los cada vez melhor em próximas experiências. Sempre dê um feedback, diga o que cada momento da sessão te despertou, quais sensações surgiram a partir de cada estímulo, tudo o que você conseguir lembrar. Tudo isso para que vc e a rigger se sintonizem cada vez mais num shibari proveitoso para ambas as partes.


Autoras:Fernanda Mazza (Nanda Lillith)  e Gabriela (Maya)

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